Aquario Marinho

Aquarismo marinho

Tecnologia em excesso – Parte III – Água – Qualidade, Movimento Interno e Trocas Parciais

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Tecnologia em excesso – Parte III – Água

Qualidade, Movimento Interno e Trocas Parciais

Detalhe de C. jardinei

Qualidade de água

Por “qualidade de água” ideal para uso em aquários de recifes de corais poderíamos comparar a que se usa em aquários com a que ocorre no ambiente natural.

No entanto, os problemas em relação a esse tipo de confrontação são vários, e totalmente “injustos”; nos vários ambientes (e até mesmo micro ambientes) em que ocorrem recifes de corais existem variações muito grandes em diversos de seus parâmetros (temperatura média anual, densidade, etc.).

Por conta disso, “qualidade de água” será considerada neste artigo uma característica fundamental para o bom desenvolvimento dos animais do aquário: sua pureza.

Água do mar é um líquido em que se encontra H2O e, na exata e mesma proporção, todos os elementos químicos da Tabela Periódica, dissolvidos na forma de íons ou combinados com Oxigênio – caso do Carbono e do Fósforo, por exemplo.

Alguns elementos ocorrem em maior concentração e outros em menor (até chegarmos a elementos praticamente indetectáveis como o Cobre, que ocorre à taxa de 0,00005 mg/L).

A salinidade varia entre 20 e 34 partes por mil no Mar Báltico a quase 40 partes por mil no Mar Vermelho.

Por essas e várias outras razões, levaremos em conta apenas que a água do aquário deve ser isenta de fosfatos, nitratos e outros poluentes que a tornam um líquido impróprio para uso em aquários de corais.

A imensa maioria dos animais que habitam aquários de recifes de corais é oriunda de locais em que a água apresenta pouquíssima concentração de poluentes de qualquer tipo.

Seria redundante tratarmos de coisas como densidade, salinidade, composição e outras características além deste ponto porque esses assuntos já foram longamente colocados em muitos artigos e matérias de revistas ou livros eletrônicos e impressos.

Para se obter água com a característica de pureza necessária, pode-se lançar mão de dois “tipos” de água:

A chamada “natural”, proveniente do mar, e a “artificial”, obtida por meio de se misturar água com um dos diversos preparados comercializados no mercado.

Quando se usa água natural, deve-se medir sua densidade e efetuar testes de fosfatos e nitratos quando da sua chegada.

Esquema para filtragem de água natural

Depois de efetuados os testes, enche-se o aquário e, no caso das trocas parciais de água, deixá-la em um vaso de material atóxico em que se coloca um filtro de ultravioleta ligado a uma bomba que verte água em um filtro mecânico de 1 a 5 µ por 48 horas antes de ser usada a trata contra possíveis agentes patogênicos. A bomba e o filtro UV usados dependem do tamanho do vaso.

No caso de usar água “artificial”, os cuidados são um pouco diferentes. Primeiro, deve-se verificar a qualidade do “sal” utilizado. A fim de se evitar surpresas, deve-se preparar a água verificando sua densidade com um aparelho devidamente calibrado (pode ser um bom “densímetro”, mas o melhor é usar um bom refratômetro). A temperatura da água a ser colocada no aquário é algo importante, pois ela afeta a densidade. A marca de “sal” usada deve ser testada com os mesmos “testes”. E, finalmente, a água “doce” usada deve ser a mais pura possível. O melhor aparelho para preparar água “doce” é um conjunto acoplado à torneira, composto de um prefiltro micrônico, seguido de carvão ativado, membrana de osmose inversa e por fim resinas de troca iônica.

Misturar a água “doce” ao sal usando uma bomba de água potente dentro de um vaso de material atóxico por período mínimo de 24 horas garante a dissolução dos componentes do sal “artificial”.

Movimento interno

A circulação interna em aquários de recifes de corais deve ser intensa.

Filtro de osmose inversa com prefiltro e resinas de troca iônica

 A colocação de bombas internas de água pode variar muito em quantidade e volume nominais das bombas de água circulado por hora de acordo com o tipo de aquário (geralmente usa-se mais movimento interno de água em aquários com predomínio de corais duros de pólipo pequeno.

O início do sucesso na manutenção de corais e outros invertebrados em aquários se deu em conjunto com o uso de filtros dry wet (uma adaptação de um sistema de limpeza de rios e águas servidas das grandes cidades), que precisa de uma grande taxa de circulação de água para efetuar o trabalho de nitrificação da água.

Por conta disso, quando os primeiros aquários de rochas vivas foram montados, o erro de manter uma enorme circulação de água do aquário para o reservatório (já desprovido de bioballs ou qualquer outra mídia filtrante – usados com substrato de fixação nos filtros dry wet) permaneceu.

Esse “vício” parece persistir até hoje.

Realmente importante é a circulação interna no aquário, bastando uma taxa real de duas a três vezes o volume de água do aquário por hora para o recalque do reservatório para o aquário.

Bombas de água muito potentes usadas no recalque traz algumas conseqüências, como água quente, consumo excessivo de energia elétrica e, no final, até mesmo pouca eficiência do sistema de circulação interna.

Outro fator que afeta muito a circulação interna do aquário é a quantidade de rocha viva utilizada. Quanto mais rochas, mais obstáculos a água encontra em seu caminho, prejudicando a boa circulação interna.

Circulação interna de água em excesso faz tão mal quanto sua deficiência para os animais, porque uma força seu tecido mole de encontro ao esqueleto ou base, de maneira a cortar a parte mais macia ou até mesmo arrancar o pólipo do coral, e a outra acaba por permitir acúmulo de detritos sobre os animais sésseis.

É imperativo, portanto, não exagerar, provendo o aquário de forte movimentação de água, sem, no entanto, incorrer em risco aos animais, e, ao mesmo tempo, evitar o contrário.

Existem diversas modalidades de movimentação de água:

Laminar, ou de superfície –

Fluxo laminar

É a movimentação mais próxima da superfície, importante para uma boa troca de gases entre a água e o ar imediatamente acima.

O uso de um skimmer de boa qualidade e apropriadamente dimensionado para o aquário diminui o problema baixa saturação de oxigênio na água durante o período em que as luzes estão apagadas. Fazer com que a água seja agitada na interface ar/água do aquário aumenta a área de superfície para trocas de gases entre esses dois meios. O problema disso é perder CO2 da água. É melhor usar um skimmer apropriado do que agitar demais a superfície da água.

É importante movimentar a água de superfície, evitando, no entanto, seu excesso. Faz-se isso de diversas maneiras; a mais simples é usar a água que vem da bomba de recalque do aquário colocando a tubulação de saída próxima da superfície. Geralmente, a água que vem do reservatório foi previamente tratada pelo skimmer e resfriada pelo chiller, e por isso possui características físicas diferentes da água circundante, suficientes para que tenda a “afundar” mais rapidamente do que o normal. Água fria tende a ir de encontro ao fundo. Direcionar as saídas de água da bomba de recalque ligeiramente para baixo é uma solução razoável.

O objetivo, portanto, tomando por conta a movimentação de água do aquário como um todo, é justamente um equilíbrio entre a estratificação, com velocidade de água maior na parte superior do aquário, e leve movimentação perto do fundo.

Se a bomba principal do aquário descarregar água perto da superfície, e se for possível dividir a força de sua saída usando-se mais de um tubo de descarga, conseguimos isso com facilidade.

Interno –

Movimento interno de água

O movimento de água interno do aquário é mais complicado de se estipular, pois se deve buscar obter movimentação que atinja todo o aquário, sem no entanto perturbar o fundo de areia nem prejudicar os corais.

O uso de bombas fixadas nos vidros do aquário, ligadas ou não a um wave maker, é uma boa solução, principalmente se forem usadas bombas de jato direcional combinadas com as mais recentes no mercado, que difundem o jato d’água de acordo com a necessidade, sem que atinjam corais ou outros invertebrados sésseis diretamente antes de promoverem a maior circulação possível de água.

Ligando as bombas a um wave maker, obtemos a vantagem de criar turbulência na água do aquário, pois são várias as possibilidades que esses aparelhos apresentam de movimentar a água por ligar e desligar as bombas a intervalos de tempo variáveis.

Usando wave maker, o inconveniente de termos bombas à vista do observador é suplantado de longe pelas vantagens obtidas – aquários montados assim precisam de menos bombas.

O importante é o sistema promover a movimentação mais aleatória possível de água dentro do aquário.

Turbulência

Turbulência interna

É o tipo de movimento provocado quando correntes de água de direções diferentes se encontram. A água forma pequenos redemoinhos, movimenta-se de maneira imprevisível, e provoca escovação na superfície dos corais. Esse tipo de movimento de água beneficia os animais por tirar de sobre deles qualquer material que se acumule, estimulando também a circulação de água dentro de seus corpos e a troca de gases com a água.

Uma bomba ligada direto, sem interrupção, gera corrente de água unidirecional. Isso não traz muito benefício porque a água acaba por percorrer sempre determinado caminho, mesmo levando em conta sua natureza fluida, e os corais atingidos por essa corrente recebem-na sempre vindas da mesma direção.

Se houver acúmulo de detritos do lado que não recebe correntes de água, o animal pode ser prejudicado.

Se ligarmos duas ou mais bombas, também sem interrupção, teremos turbulência e uma ligeira variação nas correntes, pois a água começa a apresentar um pouco de mudanças em suas direções, à medida que as correntes de várias bombas se encontram.

Já quando se liga as bombas a um wave maker, a programação de liga-desliga das bombas provê várias maneiras de comportamento das correntes de água, tanto em direção quanto em intensidade. Isso é muito importante, pois os corais recebem água de várias direções e com diferente intensidade, tornando o processo de escovação proporcionado pela água nas rochas e invertebrados muito mais eficiente.

Não existem, portanto, “contas” de quanto de água deve ser movimentado dentro do aquário (é muito comum estabelecer-se que se deve, por exemplo, ter movimento interno de água em torno de 20 ou 30 vezes o volume do aquário por hora). Devido aos fatores citados acima, cada aquário deve ser tratado de forma única em relação à movimentação de água (equivalente ao termo em inglês “turnover”).

É necessário considerar que o fator mais importante é o bom-senso.

Tridacna maxima

Qualquer pessoa, mesmo não tendo prática em aquarismo, pode perceber certas coisas que indicam erros na disposição das bombas, ou a potência aplicada;
1 – A água nunca deve levantar a areia do fundo.
2 – Os corais não devem estar sempre se fechando, ficando enrugados nem apresentarem ferimentos em seus tecidos vivos.
3 – A circulação da água deve ser de maneira que atinja todos os pontos possíveis do aquário.
4 – Não se deve usar uma bomba só para todo o aquário, a fim de poder provocar turbulência quando os fluxos das bombas se encontram.
5 – Deve-se providenciar o arranjo das bombas de maneira que a maior parte da circulação de água seja feita da metade para cima do aquário.

A conclusão é que o mais importante fator para se estabelecer uma boa circulação no aquário é aprender a observar. A circulação de água é um fator de suma importância para os animais, e erros em sua execução podem levar a problemas muito sérios.

Trocas parciais de água

A forma mais eficiente e de menor custo para resolver a maioria dos problemas no aquário é efetuar trocas parciais de água.

Parafraseando um ditado em inglês, a melhor solução para a poluição é a diluição.

A somatória das formas descritas neste artigo para reduzir poluentes do aquário (colocada abaixo) não é capaz de retirar todos os agentes poluentes da água.

– A desnitrificação reduz nitratos ao ponto desse poluente ser indetectável aos testes comumente usados no aquarismo.

– Os fosfatos, de acordo com a parte II deste artigo, são retirados da água do aquário se forem efetuadas trocas parciais de água (e possivelmente retirado pelo skimmer quando se dosa kalkwasser como água de reposição).

– Skimmer cumpre sua função até o limite do possível, pois mesmo os aparelhos mais eficientes não são capazes de retirar da água todos seus poluentes.

– Uso de carvão ativado, que remove substâncias prejudiciais do aquário por adsorção. Carvão ativado deve ser usado de forma “ativa” (dentro de um filtro do tipo canister ligado a uma bomba de água). Tanto o material utilizado para produzir carvão ativado quanto o produto químico para “ativar” o produto (aumentar sua porosidade) podem comprometer completamente o sistema, se o carvão utilizado contiver qualquer teor detectável de fosfatos.

Zoantus azul

Por isso, é necessário adquirir carvão ativado de alta qualidade. Efetuar teste de fosfato em alguns grãos do produto colocado em um tubo de teste com água filtrada por osmose inversa garante a possibilidade de uso seguro no aquário.

Regime de Trocas Parciais de água

O início da “vida” do aquário

Primeiros quinze dias

Quando o aquário é cheio de água pela primeira vez, inicia-se nele o processo chamado de “maturação”, que basicamente é a colonização dos substratos por bactérias e outros organismos micro e macroscópicos.

Nas primeiras semanas de “vida” do aquário, muitos processos químicos ocorrem simultaneamente, tornando a água poluída e geralmente, amarelada. O processo envolve também acidificação da água, tornando o ambiente propício a problemas bastante sérios (surgimento de algas, dentre outros).

Por conta desses fatos, é interessante “ajudar” o processo de maturação do aquário efetuando-se trocas parciais de água de volume considerável nesse período inicial.

Todos os equipamentos do aquário devem estar funcionando, exceto a iluminação e o uso de carvão ativado.

A luz intensa empregada nos aquários de recifes de corais estimula explosões de algas indesejáveis, e usar carvão ativado no primeiro mês de “vida” do aquário é desperdício de material.

Passados quinze dias da montagem do aquário, efetua-se a primeira troca parcial de água de volume que pode atingir até 50% do total do aquário (água do aquário somada à água do reservatório).

Toda vez que se efetuar uma troca parcial de água nessa fase inicial, é recomendável desligar todos os aparelhos em funcionamento e limpá-los meticulosamente em água doce corrente (principalmente as bombas de água).

A limpeza dos equipamentos deve ser feita com o material mais macio possível (esponjas não-bactericidas são aconselháveis).

O procedimento com o reservatório é o mesmo, sendo que após a limpeza, é recomendável esperar o material que ficar em suspensão assentar sobre o fundo do reservatório para ser mais facilmente sifonado com toda a água ali contida.

O skimmer deve ter seu copo retirado e limpo a cada três a quatro dias em regime permanente. Uma vez a cada seis meses, tanto esse aparelho quanto as bombas usadas para o movimento interno de água devem passar por minuciosa limpeza, utilizando-se para tanto de água de osmose inversa com vinagre à razão de 1 litro de vinagre para cada 4 a 5 litros de água. Todos os equipamentos a serem limpos de incrustações devem ser submersos completamente num recipiente com a solução de água e vinagre por duas a três horas. Passado esse período, efetua-se a limpeza de cada aparelho com esponja macia sob água corrente antes de serem colocados de volta para funcionar no aquário.

Um mês 

Chelmon rostratus

O mesmo procedimento levado aos quinze dias descrito acima pode ser empregado.

Segundo mês

Uma troca parcial a cada quinzena, de volume de até 30% do total da água do aquário.

Apenas uma limpeza dos equipamentos e aparelhos.

Terceiro a sexto mês

Acendem-se as luzes diariamente, estabelecendo o fotoperíodo que será seguido por toda a existência do aquário.

Uma troca parcial semanal, de 10 a 15% do volume total da água do aquário.

Apenas uma limpeza das bombas internas.

A partir deste ponto, pode-se iniciar o uso de carvão ativado, na razão de 0,3 a 0,5 gramas de produto por litro de água do aquário (sendo que usado de forma ativa, 0,3g/l é suficiente).

Carvão ativado pode ser usado de maneira contínua, trocando-se todo o material usado por novo a cada dois meses, ou intermitente, quando é usado por determinado período (15 dias, por exemplo, e descartado), seguido de um período sem usar o produto (os 15 dias seguintes, por exemplo).

O reservatório do aquário pode ser convenientemente projetado para conter pouco mais de 20% do volume de água do aquário, de maneira que quando as trocas parciais forem efetuadas não seja necessário tirar água do próprio aquário para cumprir a quota percentual estabelecida.

De acordo com a observação dos testes efetuados semanalmente durante os primeiros três a seis meses (pH, reserva alcalina, nitrato e fosfato), pode-se ajustar em base definitiva o regime de trocas de água a 10% semanais.

Se for detectado algum incremento no teor de fosfatos, aumentar um pouco o percentual de cada troca parcial costuma resolver o problema.

Sexto mês em diante

Trocas parciais semanais de 10% do volume total da água do aquário, ou o volume ajustado entre o terceiro e o sexto meses.

Acanthurus leucosternon

Observações:

– Existem muitos relatos de aquaristas que não efetuam trocas parciais de água, sendo que eles não serão refutados nem combatidos neste artigo. O modelo proposto é apenas um dentre os muitos possíveis, mas de sucesso comprovado, principalmente com aquaristas iniciantes.

– O ato de efetuar troca parcial de água não é prazeroso para muitos aquaristas, que por isso acabam deixando a prática com o passar do tempo. Se o aquário for de volume considerável (acima de 500 litros, por exemplo), o trabalho envolvido em cada troca parcial realmente pode gerar incômodo, mas o aquarista deve traçar planos para facilitar ao máximo o procedimento de trocas parciais enquanto o aquário ainda estiver no ponto de projeto. Por outro lado, efetuar cada troca parcial de água proporciona um momento em que o aquarista pode verificar o funcionamento adequado de cada um dos aparelhos do aquário – e isso é muito importante.

Clique no link a seguir para ler a Parte I:  https://ricardomiozzo.wordpress.com/2010/09/01/

Clique no link a seguir para ler a Parte II: https://ricardomiozzo.wordpress.com/2010/09/14/tecnologia-em-excesso-parte-iii-agua-qualidade-movimento-interno-e-trocas-parciais/

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